Organização política para a luta é estratégia de jovens feirenses para enfrentar os problemas do município que completa 188 anos de emancipação

16/09/2021

Neste sábado, 18, Feira de Santana celebra 188 anos de emancipação político-administrativa. O município, que é o segundo maior do estado da Bahia, tem uma localização estratégica para o trânsito de pessoas que vêm atraídas não apenas pelo forte comércio que permite um consumo diversificado, mas pela possibilidade de empregos e inserção nas universidades públicas e privadas. Com o crescimento da cidade, cresceu também problemas sociais como violência, desemprego e miséria, especialmente, neste momento de grave crise e recessão que tem impulsionado mais pessoas para a linha da pobreza, situação de insegurança alimentar e desemprego.

Para refletir sobre o município e os problemas que os cercam, a Adufs conversou com dois estudantes feirenses engajados nas mobilizações contrárias ao governo federal e suas políticas de estrangulamento e que refletem também sobre a falta de diálogo com o governo municipal e a escassez de políticas de melhora da qualidade de vida em diversos setores fundamentais para a população feirense, como moradia, saúde, transporte público e acesso à cidade.

Para Pedro Henrique, 20 anos, estudante do segundo semestre do curso de Geografia, membro da comissão gestora do Diretório Central dos Estudantes (DCE), militante da União da Juventude Comunista e integrante do Movimento Fora Bolsonaro-Mourão, a realidade excludente de Feira de Santana é uma construção histórica consentida pelos governantes que, até então, estiveram no poder. "Feira de Santana, historicamente, é uma cidade que sempre teve dificuldade de ampliar o seu acesso para todos; a luta por moradia mesmo é uma pauta histórica dos movimentos sociais da cidade que, desde George [Américo] e suas ocupações, enfrentaram a elite latifundiária Feirense. Para além das questões da moradia, ainda hoje, o governo municipal não efetiva políticas de integração com os distritos da cidade, que ainda têm sua população esquecida e que sofrem com as lamas nas estradas que nunca são pavimentadas", afirma Pedro Henrique.

Outra questão trazida por Pedro Henrique que compromete de forma significativa a vida da população são os preços e qualidade do transporte público. "O transporte público de Feira de Santana tem um valor absurdo, sendo a passagem mais cara do Norte e Nordeste e ainda com a recente e absurda proposta de aumento para R$ 6,90, com linhas que não interligam a cidade de fato, insuficientes para o contingente populacional, ônibus de péssima qualidade que vivem lotados, totalmente precarizados e que as empresas (ou cartéis) fazem o que querem e a prefeitura continua apenas enchendo o bolso dos empresários", disse Pedro Henrique.

Segundo Janielle Aimée Soares, 21 anos, estudante do curso Técnico em Eletrotécnica do Instituto Federal da Bahia, o transporte público é ainda um fator agravante da situação sanitária do município na pandemia. "O transporte público se torna mais precário quando acontece redução da frota de ônibus e no momento de pandemia, no momento que as aulas voltaram. É necessário que se tenha um transporte com o mínimo de qualidade, mas o que está acontecendo em Feira é o contrário. São horas nos pontos de ônibus e todos os dias há a ameaça de que a Rosa e a São João (empresas de ônibus) vão sair da cidade, vai aumentar a passagem [...] Sem diálogo com a sociedade, toda a população que necessita do transporte público para trabalhar e estudar fica nessa situação de abandono", afirma Janielle que também faz parte do Movimento Fora Bolsonaro-Mourão.

Para a juventude pobre, não existem muitas alternativas, afirma Pedro Henrique. "Não há também uma política de atividades e espaços culturais para a juventude feirense na periferia da cidade, projetos que integrem a juventude e que não estejam voltados apenas ao Centro". Ele destaca ainda situações de violência presente nestes locais protagonizadas pelo governo do Estado através da Polícia Militar (PM). "O acesso à cidade também passa pela dificuldade com a violência que enfrentamos na periferia da cidade, com as políticas de extermínio da polícia militar do governo do Estado, que é a polícia que mais mata preto e pobre no Brasil", enfatiza. 

Outro grave problema de Feira de Santana destacado por ambos é a remoção forçada dos trabalhadores e trabalhadoras informais do centro da cidade. "Esses problemas decorrentes de uma Feira de Santana que ainda não garante uma cidade para todos, evidência uma elite feirense, reacionária, racista, anti-povo e anti-trabalhador, que sustenta o projeto político vigente na cidade que é o resquício do coronelismo Carlista. Mesmo projeto que agora quer destruir as feiras do centro da cidade, apagando a história da Feira de Santana e ampliando, ainda mais, o desemprego", afirma Pedro Henrique. "Acabar com a feira de Feira de Santana, parece piada! É querer acabar com a história, tirar o pão de muitas famílias e colocá-las num galpão sem a menor estrutura para suportar todas as pessoas, todos os feirantes. Querem simplesmente tirar e não dar nenhum suporte. Isso é um total absurdo que precisa ser resolvido. Colber, assim como o presidente, só quer governar para os ricos", disse Janielle Soares.

 A organização política, diante dos problemas estruturais, não apenas do município, se torna fundamental, principalmente nos momentos de crise como o que o país enfrenta. "Estar organizada politicamente, estar construindo atos em Feira de Santana e pelo Brasil, faz com que a chama da esperança revolucionária, a chama da esperança de algo que é possível, sim, acontecer, continue acesa", avalia Janielle Soares. Para a estudante, durante os momentos de panfletagem e conversas com a população é possível perceber a presença de pessoas revoltadas com a situação, mas também de pessoas conformada. No entanto, indispensável é mostrar para estas pessoas que a mudança é possível e somente através da união na luta é possível. "Eu acredito muito nisso, que a luta é capaz, sim, de mudar a vida. O Movimento Fora Bolsonaro é um meio de levar essa mensagem de esperança revolucionária e construir estratégias para a mudança, melhorias e para o fim deste governo que só quer saber dos ricos e esquece o povo", destaca Janielle.

Debater todas estas questões, de forma organizada, é fundamental também na perspectiva de Pedro Henrique. "Devemos pensar essas questões para podermos debater o direito amplo à cidadania, precisamos enfrentar as políticas autoritárias neoliberais do governo Bolsonaro-Mourão que mata os brasileiros de Covid e de fome e, para isso, a juventude feirense, nessa conjuntura, vai às ruas para pedir dignidade e poder popular e, assim, conseguirmos de fato os direitos básicos que precisamos", conclui.

Leia outra matéria publicada nesta semana sobre o aniversário de Feira de Santana.

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