XVI Encontro das UEBA reúne docentes das quatro universidades estaduais para discutir conjuntura e estratégias de luta para a categoria

03/07/2026

Nesta quarta-feira, 1° de julho, foi realizado o XVI Encontro das UEBA, com o tema Defender o Estatuto é Fortalecer a Universidade. 


Realizado pelo Fórum das ADs, sob a coordenação da Associação das(os) docentes da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (ADUSB), o Encontro promoveu, durante todo o dia, mesas de discussões com Análise de Conjuntura, debates sobre adoecimento docente como consequência da intensificação dos trabalhos; e historicização do Estatuto do Magistério Público das Universidades do Estado da Bahia.


Os trabalhos da manhã foram abertos com a Mesa Análise de Conjuntura com a medição da professora Sandra Ramos (UESB), que compõe a coordenação do FAD, a professora Virgínia Fontes (UFF) e o professor Elson Moura (UEFS).



A professora VirgÍnIa Fontes fez uma abordagem ampla sobre o cenário mundial ao apontar para as muitas guerras e acesso as armas nucleares, que sinalizam para uma exterminação iminente.  A professora destacou que há um fortalecimento das classes dominantes, o que ampliam os processos de expropriação da classe trabalhadora. Classe esta que nunca foi tão extensa numericamente e nunca tão explorada.


No cenário de Brasil, a docente enfatizou que a burguesia mantém um padrão de exploração, que até age de forma subserviente aos interesses de outras nações, como os EUA, mas com interesse estrito sob o capital, vide as interlocuções de empresas brasileiras diretamente com o governo americano, como ocorreu com a JBS, na ocasião do tarifaço que incidia também sobre as exportações de carne bovina.


Apesar do cenário 'pessimista', a professora destaca que há caminhos possíveis que dependem da intensificação das lutas: "Não basta resistir, nós vamos ter de enfrentar. Lutar pela vida em todos os seus formatos. Para defender a vida precisamos voltar a ser humanos. Nós estamos sendo desumanizados, estamos com tempo tomado por demandas, sofrimento e adoecimento. Ainda assim, resistir é possível e enfrentar o estado das coisas é absolutamente fundamental. Não podemos nos perder nas concessões, nem nos acordos. Tem que haver enfrentamento do capital".



O entendimento do professor Elson Moura não foi diferente. Para ele, a conjuntura é complexa e desfavorável para a classe trabalhadora, mas as resistências mostram que existem saídas. As lutas contra a aprovação da Reforma Administrativa, muitas organizadas pelo Andes-SN, comprovam que a força coletiva é o caminho. Outro exemplo citado foi o da 'PEC da Bandidagem', que previa a autorização do Legislativo para abertura de processos penais contra parlamentares. Foi o amplo e histórico movimento nas ruas que enterrou a PEC.


Apesar disso, o docente também reconheceu o uso da institucionalidade como entrave para o avanço das pautas. Como exemplo disso, Elson Moura citou as políticas orçamentárias que são de desidratação do serviço público. Por isso, Elson Moura defende a importância de projetos políticos independentes e autônomos.


Mesa Estatuto do Magistério Público das Universidades do Estado da Bahia: Historicização e Perda dos Direitos

Na sequência dos trabalhos, tivemos a Mesa Estatuto do Magistério Público das Universidades do Estado da Bahia: Historicização e Perda dos Direitos, com a mediação da professora Karina Sales (ADUNEB), e participação dos docentes Jorge do Nascimento (ADUSB), Marcelo Lins (ADUSC) e João Diogenes Ferreira (ADUFS).



Na mesa, os docentes fizeram o resgate de períodos críticos de lutas pela consolidação do Estatuto, que envolveram greves e inúmeras outras diversas mobilizações para pressionar pelos direitos da categoria.


Coube aos docentes Jorge do Nascimento e João Diogenes, o resgate histórico das memórias de lutas que foram embriões para o Estatuto. Já o professor Marcelo Lins fez referência a atual conjuntura, debatendo perdas mais recentes.


O professor Jorge do Nascimento lembrou que é um dos docentes que está na luta desde a construção do Estatuto, já que ingressou na Universidade como docente ainda no ano de 1986. Ele destacou aspectos importantes que foram considerados para a definição dos termos presentes no Estatuto, que vinham sendo discutidos desde 1984.


O professor João Diogenes destacou o nome de outras(os) valorosas(os) companheiras(os) de luta que participaram ativamente dos períodos anteriores aos anos 2000 e resgatou ações de truculência orquestradas pelos governos na tentativa de impedir a mobilização da categoria.


O professor citou Conceição Evaristo para lembrar a importância do aquilombamento para fortalecer os enfrentamentos, que não são possíveis sem a organização coletiva.


O professor Marcelo Lins deu continuidade a discussão trazendo elementos da atualidade, refletindo sobre perdas que a categoria tem acumulado, o que impõe a necessidade de criar mais estratégias de enfrentamento.


Para citar algumas das perdas, o professor Marcelo destacou a extinção da Licença Prêmio; a falta de pagamento do adicional de insalubridade; as filas de promoção; além das condições precárias de trabalho no cotidiano, potencializada pela ausência de concursos. O professor lembrou os quase 12 meses, de silêncio e omissão diante da pauta da categoria, o que aponta para a urgência de ampliar as lutas.



Mesa Direito se cumpre! Intensificação do trabalho e adoecimento docente.

As discussões da tarde foram retomadas com a Mesa Direito se cumpre! Intensificação do trabalho e adoecimento docente. A professora Nane Albuquerque (ADUSC) mediou os debates que foram incentivados pelas professoras Iracema Lima (ADUSB), Amanda Moreira (UERJ), Marcos Silvany (ADUNEB).



A professora Amanda Moreira trouxe elementos importantes para pensar o adoecimento docente a partir da Intensificação do processo de plataformização que contribui significativamente para a ampliação da precarização das relações trabalhistas. A docente refletiu sobre a naturalização dessa plataformização que implica em danos físicos e psicológicos.


Amanda Moreira trouxe ainda dados da enquete realizada pelo Andes-Sindicato Nacional sobre a saúde docente que confirmam a sobrecarga da categoria e a realização de trabalho quase ininterruptamente no cenário pós-pandemia. A análise dos dados comprovam que esse adoecimento não é individual. É um fenômeno coletivo, "um problema estrutural do sistema capitalista. Nós não estamos imune a ele e o processo de plataformização agrava esse quadro". A professora concluiu sua fala convocando a categoria para resistir as investidas do capital para assim minimizar os impactos da exploração trabalhista.


Já o professor Marcos Silvany, destacou a importância de retirar esta "intensificação" do campo subjetivo. É preciso tratar este processo de forma objetiva. Segundo ele, há entendimento equivocado acerca desta intensificação, como algo que significaria o aumento da qualidade, mas que, na verdade, tem efeitos pedagógicos contrários. A sobrecarga compromete a qualificação discente.


Ele reforçou os riscos da plataformização também pelas dificuldades de separar o espaço profissional do privado. E foi além ao explicitar a importância de reorganização estrutural para correção do problema, que não pode ser resolvido individualmente, uma vez que se impõe como demanda cotidiana e até marcador de competência de toda uma categoria. A solução, enfatizou ele, deve ser buscada institucionalmente, por meio de reformulação das diretrizes de trabalho.


A professora Iracema Lima começou a sua fala apresentando o relato de uma docente da UESB, vítima de acidente de trabalho em laboratório, que não teve qualquer assistência da instituição, sequer para buscar socorro. Esta situação foi descrita pela professora Iracema como recorrente na categoria, sobretudo aos que são submetidas(os) a trabalhos em condições insalubres.


Iracema Lima trouxe para o debate direitos continuamente negados que influenciam diretamente no quadro de adoecimento: adicional de insalubridade e até mesmo o limite da carga horária de trabalho para docentes em regime de DE. Além destes direitos, ela destacou outros extintos como a Licença Sabática e a Licença-prêmio.


O trabalho nas Universidades Estaduais, da forma como está, fere as atribuições previamente estabelecidas à função, destacou a docente. A carreira está sendo severamente atacada. À luz das reflexões, a professora reafirmou o papel da organização coletiva para frear os ataques e garantir o cumprimento dos direitos. "Somente a luta muda a vida e Direito se cumpre!", concluiu.


Plenária de Encerramento

A Plenária de Encerramento fechou mais um Encontro das UEBA com um momento histórico: as quatro Associações Docentes das Universidades Estaduais da Bahia estão sob coordenação de mulheres: Valdilene Gondim (ADUFS), Nane Albuquerque (ADUSC), Karina Sales (ADUNEB) e Iracema Lima (ADUSB).


A ampliação da representatividade nos movimentos sindicais é resultado de lutas. Um passo importante que nos lembra que os  retrocessos existem, mas os passos a frente devem, sim, ser celebrados.


Saudamos as mulheres aguerridas que assumem esse compromissos junto a outras(os) valorosas(os) companheiras(os) em cada Associação Docente.


Muitos enfrentamentos ainda serão travados e a necessidade de ampliação da organização coletiva sintetiza os caminhos apontados nas reflexões de todo este dia. 


Os encaminhamentos da Plenária indicam um cenário que é de intensificação dos embates em muitas frentes.


A Adufs, junto ao Fórum das ADs, segue mobilizado na construção de estratégias de luta.
Todas as mesas realizadas no Encontro das UEBA podem ser assistidas no link: https://www.youtube.com/live/nAKX2V-TeyE?si=fQ4osopn74gRGrZc

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